Linhas ou apenas retas?



Por Daniele Costa


Antes de iniciar, peço para que encare isso como uma conversa-texto, em que o intuito é trocar ideias, provocar questionamentos e reflexões, partindo das minhas vivências enquanto pole dancer. 


Você que já se aventurou por alguma modalidade de dança já deve ter escutado algo sobre linhas. Nas primeiras vezes que me deparei com o termo ficava me perguntando, “Mas que diabos são essas linhas?”. Com o tempo fui sacando do que se tratava.

Imagine que o corpo é constituído de pontos, pontos estes dotados de energia, em constante transformação, que ao se movimentarem desenham linhas, as quais podem agregar diferentes valores expressivos a este movimento. Bonito não? Assim, as linhas seriam uma forma de observar e perceber a dança.


Até aí tudo bem. Só que comecei a me atentar que dificilmente essas linhas eram notadas em corpos gordos. As mesmas geralmente são elogiadas e valorizadas em um determinado padrão de corpo, um corpo magro e esguio. E que muitas das vezes, não se busca pelas formas, variações e micro variações que um corpo constrói ao se movimentar e sim, por linhas retas perfeitas. E daí a associação de linhas com um corpo magro e esguio, já que reza a lenda que nesse tipo de corpo essas linhas (leia-se retas) são melhores observadas.

Perde-se assim a poesia dos desenhos dos corpos, dando lugar a uma hierarquização gordofóbica, desvalorizando a movimentação e a dança de corpos que não correspondem a esse padrão (magro e esguio), silenciando as suas expressividades e delimitando seus acessos.


Trazendo a conversa pro pole, noto um pouco disso no Exotic. É uma modalidade interessantíssima, mas que nunca me senti confortável em experimentar por considerar que meu corpo não é adequado pra prática, que não conseguiria executar os movimentos corretamente, justamente por essa valorização das retas e associação das mesmas a um corpo padrão. E já me deparei com outros relatos semelhantes, especialmente de pole dancers gordas.


Triste como um conceito que poderia ser utilizado para a percepção de dimensões da dança, da singularidade de um corpo dançante, muitas vezes pode ser distorcido reduzindo a dança a um conjunto de traçados retos e excludentes… 


Deixo aqui essa reflexão, e o pedido para que questionem suas práticas, as padronizações da dança, do pole, esse texto, enfim tudo. Questionar é o primeiro passo para provocar mudanças, de irmos ao encontro de uma dança e um pole mais plural e inclusivo. Abraços e até uma próxima conversa.



Dani Costa


Uma mulher preta, gorda, professora universitária que não se via dançando apesar de gostar de dança.


Iniciou suas práticas dançantes em 2018, através do pole dance, e desde então entre muitas idas e vindas, está em constante busca do que é a sua dança, de qual é a da dança e de como torná-la mais plural. E por acreditar que estas buscas devem se dar também no âmbito coletivo, é colaboradora do Coletivo Pole Gordas.

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